Resisti, resisti, resisti. Hoje não resisto. Os males de Portugal
entram-me caneta adentro. Entram-me pelos olhos e ouvidos, batem-me no cérebro,
ricocheteiam no coração e caem-me como pedras no estômago. O futuro é dia nenhum.
Foi ontem. Cada dia que nasce anoitece mais depressa. O futuro é o passado.
Esperança nenhuma à frente. Esgravato no fundo de mim um pequeno ponto de
brilho que me permita escrever. Não encontro. Ando sem dia nenhum à frente. O
desgoverno bate-me traiçoeiro nas costas, como um sopapo de mão gorda, e
afocinho de queixos no chão, todos os dias. A corja mandante tem-nos de gatas e
de calças nos tornozelos. Portugal recua. Eu resisto. Hoje não, porque em mim:
dia nenhum à frente.