Dia
acordado à pressa, não te vejo na cama, penso que já foste, distraio-me na
barba e no chuveiro apressado, prometo que hoje me vou deitar mais cedo, para
dormir muito, prometo sempre. Parece que já saíste. Digo que nunca mais vou
usar gravata, digo sempre, não cumpro nunca. Tenho a vida adiada, até à próxima
fatalidade, ou até à reforma, porque até lá ainda não tive tempo para nada.
Esse mesmo tempo que reclamas ser para ti, esse mesmo tempo, não existe, sou um
marido adiado, um pai adiado, um amante adiado. Dizes que vivo para o trabalho, não! Trabalho para sobreviver, para sobrevivermos. Isto tudo na cabeça entre a
casa de banho e a porta da rua. Chego à entrada numa ansiedade operária que
precede o picar do ponto, remexo os molhos de chaves, moedas soltas e cartões
de visita, nunca acerto nas chaves, meto tudo nos bolsos. Desço elevadores abro
portas de escadas e garagens, preciso de quatro chaves para conseguir sair de
carro, e nunca acerto à primeira.
Trânsito
e nova garagem, e mais portas, cartões e chaves para chegar à secretária. Trabalho, trabalho, trabalho.
Chego a
casa já dia adormecido, sento-me, sento-me não, caio, caio no sofá. E logo que
caio, os meus olhos num envelope ao centro da mesa, é uma carta, diz João, é
para mim. É tua. Diz que fui o amor da tua vida, que te aconteci como num
sonho, que fui o homem mais incrível e carinhoso, que parecia mentira, que não
podia ser verdade, que como eu não existia. Mas, diz a carta também, que como
vais avançada de idade, a entrar pelos quarenta adentro, que querias assentar e
ter filhos, e que alguém como eu não dá segurança a ninguém. A carta também
diz: Adeus. A puta da carta.