segunda-feira, 21 de maio de 2012

Dia 76

Farta de tudo. Do dia-a-dia que mata. Mas não mata como pistola, mata como faca: todos os dias um novo golpezinho. Por vezes golpes maiores, de catana, que nos atiram ao chão, e ainda assim levantamo-nos sempre, mesmo que a golpezinhos de canivete, sem saber que mão nos ajuda.
- A vida custa a toda a gente!
dizia-lhe o pai quando mais nova.
Pensou que sim, mas pensou também que nem toda a gente aguenta.
Tinham saído todos no final do almoço, o marido para a Companhia, o mais velho para a faculdade, o do meio talvez para o liceu, mas provavelmente para jogar bilhar e fumar numa cave mal cheirosa de um qualquer café, a mais nova também para o liceu, ou talvez para uma festa em casa de uma amiga de pais ausentes, com bebidas, fumo e rapazes, pensou que talvez fosse melhor falar-lhe sobre a pílula, que já estava em idade e a tomar formas e belezas de mulher, e já se sabe: mais vale prevenir.
Estava farta de tudo. Passou a casa deserta e foi até ao quarto, caiu sentada de ombros tristes na colcha amarela de velha. Olhou com olhos vazios tudo à volta, e sentiu-se farta de tudo. A caixa de sapatos onde o marido guardava a pistola, espreitava por baixo da colcha junto aos pés, abriu-a e pegou-lhe. Pensou em tudo o que fazia todos os dias, semanas, todos os anos, e não encontrou nada que fizesse com alegria. Lembrou-se que o único sítio onde foi feliz foi na infância.
Fechou os olhos e caiu morta na cama. Morreu até ao fim da tarde, até o marido chegar e a acordar aos abanões para ir fazer o jantar.