Este céu de cimento. Dá ideia de que mil anjos trolhas a chapar massa por cima de nós. Nuvens andaimes, com anjinhos de cigarro na boca, vasilhames de cerveja e um rádio a gritar um refrão fácil, logo, irritante.
Este céu de cimento por cima de nós, bem por cima do sofá.
Este céu de cimento cinzento que nos não permite uma palavra de ternura, tenho-a aqui debaixo da língua, mas este cimento cola. São as palavras todas que não te disse. Todas as palavras amargas: de tristeza, de raiva, de irritação, de angústia, de frustração. Todas juntas são este cimento.
Aposto que tu igual. Mas este céu...
Já fomos a Paris a fugir dele, mas veio connosco, sofá e tudo.
Depois o filho não veio, e deixaste de me procurar o pé debaixo dos lençóis.
Não sabes, mas hoje apetece-me. Mas este céu não me permite nem uma mão no joelho, no teu joelho, por onde começaram quase todas as minhas tentativas, conseguidas, de te ter.
E agora ainda podemos conseguir, sou tua mulher, parece-me querer-te sempre mais, apesar de tu cada vez menos. Escondes-te atrás do cigarro, das notícias, do telefone, do arroz está cru, da sopa insossa.
Essa irritação contida, furiosa, é ferrugem a desfazer-te.
Dá um berro homem, grita, esmurra, sangra, chora, mas por favor: rebenta com este céu de cimento!