domingo, 4 de dezembro de 2011

Dia 65


Parecia fácil, a gente chegava ali, falávamos um bocado, melhor, falavas tu, que eu só tinha que ouvir, que gostava de ti já tu sabias, e pronto, como gente adulta despedíamo-nos  com dois beijos de bochecha, que a língua já não era para ali chamada e pronto.
Supostamente aquilo acabava por minha causa dado que tu é que tinhas queixas a fazer à gerência e ainda alguns apontamentos no livro de reclamações, para que outras que viessem não caíssem no engodo do meu mau serviço. Entenda-se mau serviço, por uma série de falhas imperdoáveis da minha parte, tais como, usar lenços de pano, ter pêlos nos ouvidos, criar bolas de cotão no umbigo e gostar de fazer paciências de cartas, e não o “mau serviço” que parece associado a práticas carnais de que não me gabo, mas que julgo suficientemente prazerosas dado que nessas alturas tornavas-te até mais mística, gritando repetidos, ai meu Deus, e vários, amo-te muito, soprados ao ouvido.
Parecia fácil mas não foi. E não culpa minha. Devia ter sido fácil. Mas sabes que vestir a pele de adolescente quase com quarenta anos,  é como comer bolinhos de bacalhau, corres sempre o risco de te aparecerem espinhas.
Espero que estejas bem, e aconselho-te a não comprares cremes anti-borbulhas, porque só desaparecem com a idade.
Eu estou bem, estou a fazer tranças com os pêlos dos ouvidos, para no próximo carnaval ir de Astérix. E sabes, estar sozinho é óptimo para fazer paciências.