quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Dia 58


É verdade que podia ter ido buscar os miúdos. Podia ter passado no restaurante e comprado comida, podia ter levado o carro à revisão, podia ter pendurado o quadro que te deu o teu chefe (feio o raio do quadro) que é uma excelente pessoa (humilde dizes tu), podia ter passado no supermercado para comprar acendalhas (sou eu que acendo a lareira), é verdade, podia, podia mas não fiz nada disso.
Sabes que há dias em que acordo meio esquisito, um pé no mundo e o resto de mim fora dele, como que a querer fugir, a querer ficar sossegado, a olhar-vos de longe, neste mundo que o Homem inventou, neste mundo que gira mais rápido que ele próprio. Consta que Deus o fez com calma, uma semana de Deus são milhares de anos de Homem.
E sabes, esses “podias” com que me atormentas estão a dar cabo de mim, e por consequência, de nós. Sabes que esses “podias”, parece que nos chamam
- Preguiçoso
e nos puxam para o mundo, carregados de tarefas.
É verdade que podia, mas não é menos verdade que podias ser mais carinhosa comigo, podias ser mais amante, podias ser mais mulher, podias pensar em nós, podias namorar comigo, podias sair comigo, jantar, ir ao cinema. Esta preguiça dói, a preguiça de afectos, a preguiça do carinho e do amor.
Afecto, carinho, amor, precisam de uma nuvem de sossego, de um tempo lento, sem segundos nem minutos, e do mundo todo a desaparecer lá fora e a fazer-nos três: tu, eu, nós.