Tão bem resolvida! Tão independente e dinâmica! Tanta alegria na tua condição, que esmorece quando dela fazes propaganda. Aí começa a tua fragilidade. Só e de bem com a vida! Percebe-se que um produto precisa de publicidade se o simples facto de existir não lhe basta. Assim é contigo, publicitas, logo desconfio.
Esperas alguém e finges não esperar, escondes-te na confortável monotonia do despertador, na malga de cereais e na aula de ginástica. Esperas sempre alguém…
Fazes da vida o passar do tempo até morrer. Esperas sempre alguém…
Morres de medo. Tremes na intimidade. Já foste mais nova. E perguntam-te
- Já casaste
e dizem que conhecem alguém para ti. Respondes
- Estou bem assim!
Um dia aparece-te alguém que não pára nos semáforos e te molha o chão da casa de banho, alguém que te parte o despertador e nem sequer gosta de cereais.
A tua prisão de conforto está ameaçada, o teu coração ameaça um motim, há lençóis a arder em todas as janelas, e gritos a clamar liberdade! Apaixonaste-te!
E de repente insegura, reprimes os amotinados e negoceias com o teu coração mais meia hora de passeio no pátio, da tua prisão de conforto. Permites-te no máximo uma prisão domiciliária, com um recluso que não se amotine. Será certamente um bom pai e um bom companheiro.
Assim sonharás, a cada semáforo vermelho, que aquele que fizeste cativo, carregue no acelerador. E à noitinha, as luzes vermelhas do despertador não te deixarão dormir, com a certeza de um pequeno-almoço de duas malgas de cereais…
Ainda que mal te pergunte, que raio me responderias se te tivesse perguntado
- Queres casar comigo?