sexta-feira, 17 de junho de 2011

Dia 52


Mudaste. Não sei porquê, mas mudaste. Quando te conheci novinha apaixonei-me, mas não disse nada para não estragar. De novos passamos a menos novos, mas para mim continuavas novinha, gira, não bem gira, mais engraçada, achava-te graça. E eu fiquei com essa graça dentro de mim. Fiz-me ainda menos novo, mas tu continuavas lá, num pedaço de coração com toda a graça que te achava. Às vezes quando novinhos, levava-te a casa num carro vermelho, como dois namorados, mas despedíamo-nos sempre como se o não fôssemos, apesar de nos apetecer resvalar para os lábios um do outro. Ficávamos com meia boca em meia boca e a outra meia na cara, feitos tontos. Às vezes um olhar, às vezes um sorriso, às vezes uma vodka laranja, às vezes uma barraca na praia.
Depois duas vidas paralelas sem perspectiva de intercepção. Várias vidas paralelas. Por vezes pegava no carro e fingia que te levava a casa e podia jurar que me cresciam borbulhas. Levei-te muitas vezes a casa.
Agora que ainda menos novos, embora tu sempre novinha, as duas paralelas tocaram-se, como que num desafio à geometria.
E pronto estava tudo tranquilo, amo-te para baixo e para cima, conseguimos o empréstimo para este apartamentozinho no rés-do-chão, o meu carro quase pago, já tínhamos posto a tijoleira, fechamos a marquise. Em Outubro viria a televisão grande que vimos na loja, pelo Natal ia dar-te um micro-ondas de surpresa... E tu mudaste. Não sei porquê mas mudaste. Mudaste para o terceiro direito do nosso prédio, onde mora o doutor Gaspar. Não sei porquê mas mudaste. Bem sei que é mais novo que eu, e é doutor. Mas não me importo, continuo a achar-te graça, podes vir cá jantar quando quiseres, diz-me é se o doutor Gaspar vem, porque se vier tenho que abrir vinho, sabes que os doutores bebem sempre vinho...