Desce o elevador comigo, o senhor Moreira. Digo-lhe que o tempo está uma merda, e ele sorri orgulhoso! Está montado nuns chinelos de borracha, de fita por sobre o peitinho do pé, branco o pé, calções demasiado largos, para umas perninhas de alicate com meia dúzia de pêlos, e com uma t-shirt a dizer “ I’m too sexy for my car”. A pele tão branca como uma noiva antiga. Traz consigo uma parafernália de detergentes, cêras, escovas e panos, é domingo tinha-me esquecido, vai lavar o automóvel. Por isso aquela cara de felicidade quando me viu.
- O do doutor também precisava de uma lavadela
É genuína a sua felicidade de criança, que corre para o recreio com uma bola debaixo do braço.
Eu fico a pensar que também gostava de ser feliz ao domingo à tarde, a puxar brilho aos cromados, a contornar a pincel a parte de fora dos pneus, num assobio de pintor e com uma paciência de cartas, percorrer todos os recantos do tablier, aspirar todas as migalhas que não estão lá e ter alguém da janela a gritar, tá na mesa!
E ficar a rezar, não tenho dúvidas que o Moreira o faça, para que durante a semana caia uma chuvinha malandra, que lhe permita ser feliz no próximo domingo!