quinta-feira, 19 de maio de 2011

Dia 47

Já te perdoei! A ti não! A ti! A ti perdoei tudo, perdoei o tempo que me gastaste a tentares fazer-me o que querias que eu fosse, o tempo que me consumiste a tentares fazer-te normal, como toda a gente, e por consequência a tentares normalizar-me a mim, como se a minha anormalidade não fosse normal em mim, é nessa anormalidade que me sinto bem, nesse registo marginal, a ler escritores que não vendem, a ver filmes franceses, a ouvir canções que nunca estão nos tops... Era por isso que também gostavas de mim, não era? Ás vezes ouvia-te falar com outras pessoas
-Ele lê muito!
E era assim simultaneamente “culto” e anormal!
Agora a ti não, não perdoei nada, sim estou a falar contigo, não perdoei nada, não sei por onde começar... Tu nem sequer me tentaste normalizar, deixaste-me ser anormal, e foste embora a encolher os ombros como se não pudesses fazer nada, e isso não te perdoo, podias ter tentado, era normal... Eu a querer que tentasses, eu a querer que me normalizasses, e tu, trucla! O indicador atrás do polegar e, trucla, mandas-me um piparote, como se fosse uma bolinha de miolo de pão, por ali fora, até cair na outra ponta da mesa, e resignar-me  à condição de miolo de pão embolado, a aspirar a papo-seco! Triste migalha a dar ares de rosca!
Podias ao menos ter gritado
- Anormal! Acorda!
Aí sim, eu acordaria, ou não... Pensemos que acordaria, vestiria a fatiota da normalidade, passaria a falar do tempo nos elevadores, boa tarde senhor doutor, teria um rendimento permanente e elevado, como está senhor engenheiro, faríamos amor às quartas, antes da sessão da noite, sem grandes preliminares, para não perdermos o genérico do filme (Onde entra sempre o mesmo actor, o Starring, ás vezes o filho, o Also Starring), lerias a tal de Rebelo Pinto, eu leria suplementos de economia e, a espaços, poria os olhos num qualquer compêndio de “qualquer coisa para totós”. Faríamos viagens giríssimas, para podermos contar a toda a gente! Gostaríamos de sushi e teríamos filhos.
Seríamos assim felizes na normalidade dos outros, e comungaríamos assim, a nossa vida de merda!
A ti perdoei tudo, e a ti, também me parece que sim!