sábado, 7 de maio de 2011

Dia 44


Entro na casa mortuária, contígua à igreja. A igreja demasiado moderna para ser bonita. A casa mortuária demasiado pequena, para as almas que por lá passam. Desta vez o pai de um amigo, já não é o primeiro, envelhece-se e a morte começa a caminhar ao nosso lado... Entro portanto na casa mortuária, contígua à igreja, o ambiente não é pesado, é solene digamos. Várias pessoas me olham, a maioria senhoras, mais antigas que a igreja (que é demasiado moderna). Todas elas de preto, havia de jurar que nenhuma delas conhecia o defunto, a viúva a velar o caixão, ela sim de preto, de preto murcho de desgosto. Aproximo-me dela, um abraço comovido, um abraço molhado de tristeza e lágrimas de rímel no meu peito. Coloco-me em frente ao caixão e faço a única coisa que sei fazer nesta circunstância: agradecer a quem lá está! Parece que rezo, mas não, obrigado pela amizade, obrigado pelo carinho, obrigado pelos copos de vinho numa mesa partilhada, obrigado por aquele abraço em uníssono a gritar golo, obrigado por tudo e obrigado por nada... Enquanto ali estou, sei que estou a ser olhado, e estou, olhos não desmaiados de dor, mas sim demasiado vivos de curiosidade avaliam-me a fé. Começo a ficar desconfortável nesta posição, e uma das antiguidades femininas, com olhos reprovadores, de pestanas como patas de barata a tremelicarem rapidamente, parece que me pergunta, e o sinal da cruz menino?
Eu ali a agradecer, e a pensar na sua alma, e as pestanas de patas de barata a inquirirem trémulas, e o sinal da cruz menino? Eu a pensar na sua alma (do morto), a pensar em que momento sobe ao céu, se sobe ao céu... Os cabelos de “farandol” da antiguidade feminina sempre, e o sinal da cruz menino? E eu a lembrar-me de uma valente chapada que o meu pai me deu, quando lhe perguntei se as casas mortuárias eram uma espécie de Cabo Canaveral da alma!  E o sinal da cruz menino? Não me contenho, afasto-me do caixão (sem sinal da cruz) e curvo-me num cumprimento solene à santa inquisição em forma de senhora, um cumprimento, oleoso de creme, e sussurro-lhe: Bom homem o Sr. Manuel Mendonça! Bom homem menino, do mais santo que já conheci! Sorrio para dentro, e aproximo-me da mesinha, para assinar o livro de condolências, onde está a fotografia do defunto, que diz em cima: “António da Silva Oliveira”. Levanto as golas com um sorriso meio desgosto, e penso que foi a primeira vez que fugi à inquisição!