segunda-feira, 28 de março de 2011

Dia 32

Tenho dezenas e dezenas de canetas e esferográficas. Só uso duas. Uma para trabalhar, outra para te escrever.
A caneta para trabalhar, já sabe o que vou escrever, e vai-me dando dicas de sinónimos, adjectivos, dicas de pontuação… Está sempre a avisar-me que quase não uso o ponto e vírgula, salta de propósito para me fazer mudar de parágrafo, põe-me entre aspas as citações e muitas vezes põe um ponto final, e recusa-se a continuar (tem mau feitio). É uma caneta fria e cruel, que me obriga a ser claro e objectivo, sucinto e esclarecedor!
A outra com que te escrevo é uma libertina! Corre solta no papel, nada me impõe, nem me subjuga aos ditames gramaticais, só me dá dicas de palavras que rimam, se escrevo amor ela propõe: Dor? Calor? Tremor? Usa com exagero metáforas, hipérboles e pleonasmos. Perde-se imensas vezes, e deixa-me vaguear e saltar linhas, nunca exige pontos finais, e o seu terminar favorito é com reticências…
Por isso quando acordei ontem e me dirigi à cozinha, a minha empregada Conceição, com cara de poucos amigos (ou mesmo nenhum), me atira o papel do recado que lhe deixei para as compras da semana, e quase gritando me diz, não esperava isto de si doutor (a Conceição não sabe o que faço), sempre o tomei como uma pessoa séria! E a chorar tira o avental e sai porta fora, a gritar que se despede e que não vem mais!
Baixo-me para apanhar o papel, ridículo no meu roupão e leio:

Meu amor,
Quejo
Leite
Papel higiénico…
Espero-te ansioso no nosso ninho…
Lixívia
Iogurtes
Acho que nunca te disse, mas desejo-te muito!
Bolacha Maria
Gelado de limão
Com todo o meu amor,
Terna e eternamente teu,
Eu…

Lá se foi a Conceição… E a ti minha libertina parti-te o aparo!