Sol. Muito sol. Saio de tua casa e entro no elevador. No elevador olho sempre para o chão. Entra um teu vizinho perfumado de after shave, no mínimo insuportável, e de gravata verde com o Piu-Piu estampado a amarelo florescente. No elevador, quando acompanhado, olho sempre para cima. A minha educação sobrepõe-se ao meu estado de espírito e solto a banalidade, parece que chegou o verão Sr. Moreira! É verdade doutor (o Sr. Moreira não sabe o que faço), mas diz que já chove na quarta-feira! (diz com orgulho de agente infiltrado no instituto de meteorologia). A minha educação não se sobrepõem à irritação, e mantenho-me calado, limito-me a levantar-lhe as sobrancelhas.
Saio do prédio, e ando sem destino, e penso que triste deve ser o Sr. Moreira! Para ele o sol de hoje (segunda-feira) não brilha, enublado pela previsão de chuva na quarta…
Acho que temos todos um Sr. Moreira a morar em nós! Mais do que a vida, são os Moreiras que nos castram, é a previsão do futuro a atrapalhar o presente, maldito boletim meteorológico!
Passados dias subi no elevador com o Sr. Moreira e com a sua mulher (a minha Dores, ri-se malandro, com o trocadilho), e eu ingénuo soltei a banalidade, hoje parece um dilúvio! Estamos no tempo dela, solta o Moreira! E para acabar de vez com a minha paciência, diz a Dores, e ontem doutor, ontem é que parecia o fim do mundo!
O casal Moreira, continua a estragar todos os dias da sua vida, com as chuvas passadas e com as que hão-de vir, puxam a cada dia todo o passado mau e todo o futuro incerto para junto de si, e não entendem que, em vez de viverem, morrem todos os dias…
Eu já tomei as minhas precauções! O casal Moreira que habita o condomínio da minha alma, já tem uma acção de despejo, por incumprimento da regra número um dos estatutos do condomínio: “tentem ser felizes”.
Pena tenho, que a justiça neste país seja tão lenta!