Mãe, porque corres de um lado para o outro na cozinha? Estou aqui, vim ver como estavas, e tu de um lado para o outro! Sei que o pai está doente, na cama, e isso te preocupa, mas eu estou aqui, pequenino a pedir mudo que me olhes!
Descascas e lavas sempre a mesma cenoura! De um lado para o outro, de um lado para o outro. Tens medo de me olhar e que os olhos te escorram pela cara abaixo, é isso!
Eu quando entro aqui fico pequenino, nesta casa, nesta cozinha, não percebes?
Preciso de mãe! Preciso que me dês duas malgas de marmelada, me fales da tia Bé, me contes dos últimos esquecimentos do pai, que se lhe vai a memória, que me perguntes se tenho alguém, que me critiques a preguiça, que me agarres a cara, a detestar a barba por fazer, a “penicar” o borboto da camisola, a amassar o cabelo e a puxá-lo para o lado… Preciso do amor das coisas pequenas…
Só te vinha contar da Sara, e vinha buscar duas malgas de marmelada…
Tu parece que adivinhas a Sara… Estás com ciúmes é isso!
O Chico disse-me que andas aí com uma moça… E muito mais nova que tu!
Mingo até te chegar com o braço ao avental….
Mãe? Porque é que as malgas de marmelada dizem sempre “ Caldo Verde”?