quarta-feira, 16 de março de 2011

Dia 26

A meio da semana, a meio de um trabalho importante, ligas-me para que passe em tua casa para mudar umas lâmpadas, arranjar umas tomadas e tomar café. Aceito imediatamente o café e tento demover-te da vontade de que seja eu a fazer o resto. Não sou de todo o rei da bricolage. Nem sequer súbdito consigo ser. Uma caixa de ferramentas encerra em si mais mistério e segredo, que uma caixa de música, com uma bailarina em pontas a rodar constantemente, de um qualquer filme de terror. Aceito contrariado e pego na maldita caixa que a única coisa que tem de bom são todos os autocolantes com números de telefone, de electricistas, canalizadores, limpa chaminés e biscateiros quejandos, que colei a toda a volta.
Toco à campainha sorrateiramente, a disfarçar aquela caixa vermelha de vergonha, e a desejar que a porteira não me confunda com o homem que vem arranjar os elevadores. Abres-me a porta de sorriso tão aberto, que fico da cor da caixa (acho que ainda te ouvi dizer: que fofinho!). Durante o café tento convencer-te de que é melhor ligares para um electricista, não te convenço, mas assim que “mandei” a luz a baixo, ouvi logo o som das teclas marteladas com força no telefone.
Enquanto o homem pendurado no busca-pólos trabalha, olhas-me com amuo e desdém. Dizes-me ao ouvido, um homem que não sabe mudar uma lâmpada! E eu armado da última lança de orgulho digo-te baixinho: Pede ao electricista que te escreva um poema, pede a ver se ele sabe, ou que te recite Camões, vá pede, pede!