Esta casa (porque a comprei tão grande?), faz eco, mesmo em silêncio. O que faz um homem de cinquenta anos, só, nesta casa tão grande (terei pensado em filhos?), agora não adianta cá estou. Só. Mal acompanhado de mim porque não sei o que faz um homem de cinquenta anos, muito menos o que pensa (o que pensa?). Um homem de cinquenta anos. Estás um homem filho, dizia a mãe e isto quando fiz quinze anos. E agora mãe, de que me serve ser já um homem, se me apetece tudo o que tinha o eu menino e desprezo o que tenho o eu homem? Sim mãe hoje vou aí jantar.
O teu pai está na garagem filho lá na oficina, continua a arranjar sapatos, Deus me valha já nem tenho mais sapatos para ele arranjar, agora engraxa-os, pelo menos tem o que fazer. Não te ouvi mãe, já desço para a garagem. Tão bom este cheiro da casa. Olá velhote. Oh rapaz, bons olhos te vejam, estou aqui a acabar esta entrega para um cliente. Para um cliente... Pai! Já não há clientes e tu nunca foste sapateiro – pensei. Trouxeste a menina? Pai eu não tenho meninas quem tem meninas é o Chico. Ah... Olhou-me desconfiado, e o seu olhar perdeu-se de mim e do mundo, como se a demência travasse batalhas com a lucidez, e travava, ele sentia que ia sempre perdendo e neste sentir inconstante procurava o seu eixo no mundo. Isilda! Chamou. Vá meninos venham comer! Subi com o meu velho, velho e perdido e eu também a perder-me quando ele se perde.