Perfeita é a forma de me olhares, nunca me olharam assim. É um olhar que não invade. Pelo contrário, envolve. Não quero mais o café e apago o cigarro. Da janela onde estou não te sinto.
Tenho de trabalhar e passo horas na secretária a tentar escrever aquele bilhete que um dia te entreguei em forma de reflexo de raios de sol contra o vidro do relógio. Dei-te beijinhos na cara, três, com o relógio que agora parou. Merda. Ainda assim pode dar beijinhos. Descanso. Das amarras que criei e deixei tantos amarrar. Como me cansou. Estar amarrado e a tentar rebentar cordas, uma corda que rebenta é diferente de uma corda que desata. Mas uma corda que rebenta é mais definitiva. O bilhete. Esqueci-me. No topo da página: Meu Amor, só. Uma tarde para sair este Meu amor. Como a vida me limita, porque escrevo? Esqueço o bilhete. Resolvo-me a mostrar-te alma. Não sei é como. Tanto tempo de alma amarrada e almas a amarrarem a minha, líquida e contida. Tanto tempo perdido de beijinhos. Tantos anos sem marear. Tanta vida em porto seguro que me toldava o futuro. Casado trinta anos. Trezentos da minha alma, três mil de beijinhos que não te dei...