Nunca tinha pensado nisso, pessoas a perceberem cores atrás de cores e eu a ver só algumas. O colibri vê mais, eu vejo até mais a preto e branco, em escalas de cinza.
De um cigarro pendurado sai fumo, também nunca tinhas pensado nisso. Pois é, não estamos sempre a pensar. Tu agora fumas. Não pensas se te faz mal. Fumo eu também e penso que não me importo. Não sei quem és. Ainda. Ainda não. Caiu a cinza no chão. Eu não me importo. Toda a cinza é chão. Ontem ouvi-te, no rádio, quando liguei o carro, sem querer o rádio, apareceste-me tu, nos ouvidos, não liguei o CD. Ouvi atento coisas estranhas que dizias para os meus ouvidos daltónicos de economia. E agora fumo contigo, entendo-te. Já perdi muito tempo a ouvir-te no rádio, e agora perco-o a ver o teu fumo. Caiu a cinza, ainda bem que no chão, que é de onde é. Se para isto nos encontramos, prefiro fumar sozinho e talvez ouvir-te no rádio. Bem melhor que ver-te fumar.
Chegou o café. Olhaste para mim, agora olhaste para mim! Disseste que virias de gola alta e lábios vermelhos. Mentiste e eu também. Eu sei quem és, eu sou este aqui ao fundo atrás das velhotas. Já te toquei três vezes na cara com o reflexo do sol no relógio. Nem olhaste. Fechaste os olhos. Já me sentei na tua mesa. Cinza, café, fumo, os dois na mesa. Três beijos de sol te dei com o reflexo do relógio. Não falamos de nada, mas ouvi-te de novo no rádio. Caiu de novo a cinza, toda a cinza é chão.